domingo, 16 de março de 2008

Você quis dizer…

Há dez anos atrás, em 1998, eu reingressava na vida acadêmica ao entrar no curso de mestrado em Design da PUC-Rio. Em minha dissertação de mestrado eu discutia o papel do design na democratização da World Wide Web. Minha hipótese era que pelo fato da web ter sido desenvolvida por um grupo sócio-econômico específico, o modelo cognitivo deste grupo balizava o desenvolvimento do meio como um todo, tornando difícil (ou mesmo impossível) que pessoas com diferentes modelos cognitivos viessem a utilizar a WWW. Nesse sentido, o design teria um papel importante ao propor soluções que contemplassem as diferenças, ampliando as possibilidades de uso da World Wide Web.

Como parte da pesquisa, fiz uma análise de diferentes mecanismos de busca, comprovando que a despeito de terem sido desenvolvidos em países diversos (Uruguai, Portugal, Brasil, EUA), o modelo de interface e de arquitetura de informação destes mecanismos de busca era muito semelhante. E esse modelo não favorecia que pessoas sem familiaridade prévia com sistemas de busca pudessem compreender e utilizar essas ferramentas com facilidade.

Uma das características que percebi na época é que os mecanismos de busca não incorporavam o erro como uma variável, isto é, caso o termo buscado não estivesse com a grafia correta, não haveria possibilidade de encontrar termos semelhantes. O resultado era exato, não havia margem para erros. Em minha dissertação eu escrevi:

A grande maioria dos mecanismos de busca não conta com dispositivos que façam buscas aproximativas, que levem em consideração pequenas variações gramaticais. Se imaginarmos um usuário que não domina completamente a tecnologia da escrita, mas compreende o funcionamento do sistema de busca – sabe como proceder para efetuar uma busca – ainda assim esse indivíduo terá grande dificuldade em operar o sistema, por não dominar efetivamente a escrita. A maioria dos sistemas analisados não permitem erros na grafia, buscam exatamente as palavras solicitadas. Não bastassem as inúmeras dificuldades em compreender a lógica inerente a esses mecanismos, em última instância a barreira do saber formal institucionalizado impede a plena utilização das ferramentas de busca por pessoas com baixo índice de letramento.

Passados 10 anos, parece que as coisas melhoraram um pouco. Já não é de hoje que o Google apresenta uma solução interessante para um comportamento natural do homem – a imprecisão. Ao digitar uma palavra, caso haja resultados semelhantes com pequenas variações de grafia, o Google exibe a mensagem “você quis dizer XYZ”, sugerindo uma alternativa para o termo buscado.

imagem da tela do Google

Embora o sistema não seja a prova de falhas, ele minimiza o problema de grafia incorreta.

Olhando em retrospecto minha pesquisa de mestrado, embora o objeto de estudo tenha mudado consideravelmente ao longo desses anos, a questão principal permanece. A web ainda é o reflexo de um grupo sócio-econômico, ainda não é um espaço realmente democrático. Mas é interessante perceber que hoje há um maior entendimento de que nós não somos máquinas, que a imprecisão faz parte de nossa natureza. Acredito que isso se deva em parte pelo amadurecimento de disciplinas que trabalham com o foco no usuário, como a arquitetura de informação. Essas disciplinas buscam privilegiar o modelo mental dos usuários durante o processo de desenvolvimento de sistemas.

Como eu dizia há 10 anos, o design tem um papel fundamental no desenvolvimento de uma sociedade mais democrática, que contemple as diferenças.

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terça-feira, 4 de março de 2008

Tecnologia à flor da pele

Já comentei anteriormente sobre ubiqüidade e pervasividade computacionais. Em um futuro não muito distante, a tecnologia computacional poderá fazer parte de qualquer objeto, configurando contextos de interação bem diversos do que temos hoje em dia.

A idéia do computador do tipo desktop, um “caixote” em cima da mesa com zilhões de funções, poderá ser algo tão anacrônico quanto os cartões perfurados dos primórdios da computação. Mobilidade, especialização de funções, nanotecnologia, interfaces dinamicamente adaptáveis ao contexto…essas são algumas das vertentes que enxergo no desenvolvimento atual da computação.

Um exemplo disso é o projeto Digital Tattoo Interface, de Jim Mielke, participante do Greener Gadgets Design Competition 2008.

foto do Digital Tattoo Interface
No projeto Digital Tattoo Interface, o celular implantado sob a pele aparece como uma tatuagem, ao ser acionado pelo toque.

Alimentado com energia do próprio corpo – a glicose e oxigênio do sangue são convertidos em energia elétrica por uma célula bioeletrônica – esse implante Bluetooth altera a pigmentação dos pixels sob a pele, exibindo a tela do telefone quando acionado. Pode-se fazer uma video-conferência no próprio braço!

Embora o projeto seja apenas uma proposta, já é viável tecnologicamente.

Como se percebe, a pervasividade computacional é uma realidade cada vez mais próxima.

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Design de serviços + experiência + usuários

Neste começo de século, o discurso sobre o design mudou consideravelmente em relação ao período moderno – que curiosamente ainda é referência para muitos designers quando pretendem discutir o que é design! Cada vez mais fala-se de design de serviços, e não de produtos. Os produtos passam a ser vistos como interfaces necessárias para usufruirmos de serviços – portanto, os produtos deixam de ser o objetivo final do trabalho dos designers, deixam de ser um fim em si mesmo e passam a ser um meio.

Atualmente discute-se como projetar experiências memoráveis, e não mais a antiga discussão sobre forma & função. E nesse contexto, entender as pessoas passa a ser cada vez mais importante…foi-se o tempo do design de produtos para o usuário médio, uma abstração que pautou por muito tempo as escolas de design.

Dois livros recentemente lançados abordam o assunto. Ambos são voltados para o mercado, no melhor estilo americano de “o que você precisa saber para sua empresa ser um sucesso”. Talvez pelo fato de serem escritos por pessoas da Adaptive Path, empresa que atua também como consultoria de design. Ao longo do tempo, a Adaptive Path construiu muito bem uma imagem de inovação no campo do design, especialmente no que diz respeito ao meio digital. De qualquer forma, são livros que tratam de um assunto que está no centro das discussões sobre o que é design atualmente.

capa do livro Subject to Change
Subject to Change: creating great products and services for an uncertain world (Brandon Schauer, Todd Wilkens, David Verba, Peter Merholz)

capa do livro Mental Models
Mental Models: Aligning design strategy with human behavior (Indi Young)

Para deixar claro que não são só as empresas/consultorias de design que discutem o design de serviços, vale a pena ler a palestra do Richard Buchanan – professor e diretor do programa de doutorado em design da Carnegie Mellon’s School of Design – durante o Emergence 2007, na qual ele fala sobre as fronteiras do Service Design.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Esquizofrenia informacional

Um exemplo de design da desinformação:

caixa de leite 01
Instruções impressas na lateral da caixa de leite Da Matta.

caixa de leite 02
A embalagem efetivamente não corresponde ao que se vê nas instruções impressas na sua lateral.

O reaproveitamento de matrizes de impressão projetadas para outro tipo de embalagem ocasionou uma “esquizofrenia informacional”. As instruções impressas não servem para a caixa em questão.

Um pequeno exemplo e nada grave, mas que indica a falta de atenção desta empresa com os seus produtos, ou ao menos, com a comunicação dos seus produtos.

Será um termômetro de como os empresários percebem a importância do design no Brasil? Informar importa menos do que seduzir?

Espero que ao menos o leite desta empresa seja mais bem cuidado do que sua indigesta embalagem.

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

I.A. Summit 2008: Brasil, mostra a sua cara

IA Summit - Logo

Recentemente tive a oportunidade de participar do processo de seleção dos trabalhos que irão compor o IA Summit 2008, provavelmente o mais importante evento mundial a tratar de arquitetura de informação. O convite para participar do processo de avaliação foi feito abertamente em uma lista de discussão da qual participo. Quem estivesse disposto poderia se candidatar ao posto de blind peer reviewer.

Achei a oportunidade excepcional, especialmente considerando o fato de que não terei condições de ir ao IA Summit. Assim eu pude, de alguma forma, participar do evento e saber o que nossos colegas pensam sobre arquitetura de informação atualmente. Todo o processo de avaliação foi bem organizado e aprendi muito com essa experiência, não só pelos trabalhos que li, mas principalmente pelas avaliações feitas pelos outros revisores e discussões que ocorreram entre nós.

Olhando a lista de peer reviewers, percebi que a comunidade brasileira de arquitetos de informação ainda está tímida nas discussões. Na lista de revisores, além de mim, de brasileiros só haviam Laura Lessa, Carol Leslie e Livia Labate (que atualmente é mais estrangeira do que brasileira).

Me parece que o campo de arquitetura de informação no Brasil já se encontra maduro o suficiente para que nós, brasileiros, possamos participar de igual para igual em qualquer fórum que discuta o assunto. Temos listas de discussão relativamente ativas, tivemos no ano passado nosso primeiro encontro nacional (o EBAI), com apresentações de bom nível, e principalmente, temos um mercado com profissionais atuantes que levantam questões que se igualam às que ocorrem em qualquer mercado no mundo.

É claro que olhando mais atentamente, países como os Estados Unidos e Inglaterra têm um poder de fogo maior; a maioria das empresas que definem os rumos da Internet encontram-se nesses países. Mas ao fim e ao cabo, as discussões e os problemas com os quais os arquitetos de informação lidam por lá são muito semelhantes com o que ocorre aqui. E, principalmente, as questões particulares com as quais lidamos no Brasil poderiam enriquecer enormemente a visão de nossos pares no estrangeiro, o que justificaria um diálogo mais intenso entre a comunidade brasileira de arquitetos e nossos colegas no exterior.

No entanto, olhando o site do IA Summit é notória a nossa tímida participação. Não há qualquer painel, sessão ou poster de arquitetos brasileiros, e mesmo no comitê avaliador somos poucos. Mas sinceramente, o material ao qual tive acesso me deixou a impressão de que não devemos NADA à comunidade estrangeira de arquitetos de informação.

Eu realmente acho que uma participação mais intensa dos brasileiros teria muito a acrescentar ao cenário mundial, dada as particularidades de nossa cultura, seja ela online ou offline.

Está mais do que na hora do Brasil mostrar a sua cara.

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Flickr + Library of Congress

Dr. Schreiber of San Augustine giving a typhoid innoculation at a rural school, San Augustine County, Texas (LOC)
Dr. Schreiber of San Augustine giving a typhoid innoculation at a rural school, San Augustine County, Texas (LOC)

A maior biblioteca do mundo, a Library of Congress, se associou ao Flickr disponibilizando parte do seu acervo fotográfico. A idéia é permitir que os usuários do Flickr adicionem ‘tags’ às fotos, aprimorando as informações de cada imagem. Em tese isso aumentaria a “findability” do acervo.

A notícia sobre projeto, publicada no CNet News.com, discute principalmente a iniciativa de uma instituição do porte da Library of Congress em usar a inteligência do cidadão comum para classificar a informação. A Web 2.0 como ferramenta da maior biblioteca do mundo.

Sem dúvida é uma notícia bombástica. O acervo da Library of Congress é um colosso; no Flickr estão disponíveis “apenas” 3115 fotos, uma pequena parte das 14 milhões de imagens da divisão de iconografia da biblioteca. As imagens publicadas no Flickr não tem restrições de copyright.

Algumas fotos têm descrições detalhadas, com informações sobre o fotógrafo, a cena, o local, o formato da imagem, o material no qual a imagem original está gravada. Algumas fotos foram feitas a partir de matrizes gravadas em vidro.

Essa história me fez lembrar da discussão sobre a preservação do conhecimento em tempos de informação digital. Algumas das imagens que vemos hoje na página da Library of Congress no Flickr tem mais de 2 séculos de idade! Alguém acha que as fotos que fazemos com nossas máquinas digitais vão durar tanto tempo?

A digitalização do acervo da Library of Congress é uma tentativa de tornar o material mais acessível – o que não tem nada a ver com preservá-lo. Muita gente acha que digitalizar é preservar…há quem diga que o fato de tornar mais acessíveis as informações implicaria sua sobrevivência, pela possibilidade de reprodução contínua. Com acesso facilitado, maiores seriam as possibilidades de gerar cópias, e a informação perduraria através da sua reprodução. Pessoalmente, acho que são coisas bem distintas.

Uma das grandes preocupações de quem lida com preservação de informação é exatamente o que fazer com informações que já nasceram em formato digital – como as fotos das máquinas digitais (que quase nunca imprimimos). Há muita discussão sobre a durabilidade da informação born digital. Sabemos que os suportes de informação digital são extremamente frágeis…a despeito do que a indústria diz, o fato é que CDs e DVDs, fitas magnéticas e similares têm uma vida útil curta, especialmente quando comparada com outros suportes, como o papel (vale lembrar que existem livros com mais de quinhentos anos de idade). De maneira geral, a informação digital precisa migrar constantemente de um suporte para o outro para permanecer acessível.

Além dos suportes de informações digitais terem vida curta, precisamos de algum aparelho para fazer a leitura dos dados. E em geral esses aparelhos são fruto da uma indústria que tem a obsolescência planejada como lei. A informação que estava no CD há 5 anos atrás hoje está no iPod. E no futuro estará em outro aparelho. E com isso criamos pilhas e pilhas de lixo de aparelhos eletrônicos.

Essas são questões que não têm respostas simples…gostemos ou não, estamos em plena era digital e a tendência é produzirmos mais e mais informações born digital. O que fazer para que nosso presente, registrado em bytes, perdure durante séculos, como o material que agora está no Flickr, sem gerar tanto lixo?

De qualquer forma, chega a ser emocionante olhar as fotos de mais de dois séculos de idade no site. A tecnologia permitindo o acesso ao passado – que continua preservado, em átomos, nas salas climatizadas da Library of Congress.

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sábado, 12 de janeiro de 2008

Projetar é pensar ANTES de fazer

Durante o 3º Congresso Internacional de Design de Informação, em Curitiba, tive a oportunidade de reencontrar velhos amigos e ter várias conversas interessantes. Um dos assuntos que surgiu foi como alguns alunos atualmente são dependentes do computador no seu processo criativo.

Uma amiga comentou que ministrou um curso no qual os alunos deveriam trabalhar SEM o uso do computador. Utilizando catálogos de famílias tipográficas (como os antigos catálogos da Letraset), revistas, papeis diversos, canetas coloridas, tesoura/estilete, cola bastão e uma máquina copiadora tipo Xerox, os alunos deveriam criar uma peça gráfica (uma capa de livro, se não me falha a memória). Em suma, ela reproduziu o ambiente de criação no qual a geração de designers da qual fazemos parte foi formada, no período anterior ao surgimento da computação gráfica e dos computadores pessoais.

Ela relatou que alguns alunos tiveram muita dificuldade em lidar com a matéria, com o fato de não haver opções default, com a liberdade da folha em branco e de lidar com “mecanismos de interface” tão diferentes – não havia menus com opções, não havia paleta de ferramentas, não havia mouse ou tela para se olhar. E disse que um dos alunos não foi sequer capaz de desenvolver o projeto. Ele afirmava visualizar o que queria como resultado, mas acreditava piamente que não conseguiria realizá-lo sem um computador.

Essa história foi o ponto de partida para retomar uma discussão recorrente no nosso meio: até que ponto o uso do computador como ferramenta de trabalho influencia o próprio resultado do trabalho? Até que ponto as opções pré-programadas influenciam o processo criativo, especialmente dos alunos, designers em formação? É desejável que os alunos dos cursos de design utilizem computadores desde o início de sua experiência acadêmica? Faz sentido tentar resgatar velhas técnicas para elaboração de layouts quando o computador facilita enormemente a produção das peças gráficas?

Durante minha formação como designer tive a feliz oportunidade de viver a transição entre dois mundos. Os computadores pessoais surgiram e se disseminaram no meio do design gráfico durante minha passagem pela faculdade. Assim, experimentei a mudança, e vivi o “antes” do computador. Mesa de luz, catálogo de letras, máquinas copiadoras, fotocomposição, tinta e pincel, nankin, canetas coloridas…eram essas as ferramentas para elaboração dos layouts que traduziam visualmente os conceitos que estavam em nossas cabeças de alunos.

Aparentemente, não haveria grande diferença entre esse cenário e o cenário atual. O computador seria apenas uma ferramenta mais elaborada, com mais opções. Mas a verdade é que nos tempos pré-digitais, havia uma diferença singular. A visualização dos resultados era muito mais lenta, e custava mais para o aluno. Havia a necessidade de investir mais tempo e dinheiro para montar um layout. Diversas idas e vindas às papelarias, às copiadoras. E como não era possível operar as máquinas, tinhamos que planejar muito bem o que queríamos antes de pedir o serviço.

Esse é o ponto que, me parece, cria um abismo entre o “antes” e o “depois” da computação gráfica. Lembro-me perfeitamente quanto tempo eu gastava, como aluno, pensando o projeto antes de ter uma versão “material” em mãos. Da escolha da família tipográfica, da elaboração da mancha gráfica, decisões sobre o tamanho dos títulos, a entrelinha, a posição de cada elemento na composição, qual foto seria utilizada, em qual corte, qual tamanho, qual o “pedaço” da imagem que me interessava mais…uma série de decisões projetuais que tinham que ser tomadas a priori, antes de começar a produção de fato. Com poucos recursos financeiros, qualquer erro era um problema. Não havia muito espaço para tentativa-e-erro, ao menos na minha realidade de aluno “duro”, sem dinheiro. Muitos rabiscos em papel manteiga, copiando letras do catálogo na mesa de luz, reproduzindo fotos direto no papel, desenhando a mão inúmeros layouts antes de qualquer tentativa de produção mais elaborada, com o uso de materiais mais nobres e serviços de terceiros (xerox, fotocomposição etc).

Nesse ambiente pré-computadorizado, o aluno tinha obrigatoriamente que controlar mais o processo, antever os resultados. Não havia muita margem para errar. Ampliar “mais um pouquinho” o tamanho de um título podia significar refazer um trabalho inteiro. Mesmo pequenas variações do layout tinham que ser pensadas a priori, para evitar idas e vindas aos fornecedores. Nesse sentido, me parece que desenvolvia-se uma capacidade de projetar mais elaborada. Projetar é antever, é prever. Projetar implica necessariamente uma intenção voltada para o futuro.

Com o uso dos computadores, os alunos (e designers) passaram a controlar uma série de etapas que outrora ficavam a cargo de terceiros. Antigamente, fazer um pedido para fotocomposição de uma massa de texto era, em si, um projeto! Contar caracteres, pensar a relação de tamanho da letra de determinada família tipográfica e largura da coluna, quantos toques caberiam, quantas linhas seriam necessárias…não havia como visualizar exatamente o resultado final. Se quisessemos reduzir meio ponto o corpo de uma família tipográfica para uma dada massa de texto, o resultado poderia demorar um dia para ser visto – e custava dinheiro!

Nada comparado ao uso de qualquer processador de texto atualmente. Mesmo a ferramenta mais inadequada para design gráfico (o Word) oferece maior liberdade ao designer durante a elaboração de um layout do que as antigas fotocompositoras que nos prestavam serviços. O computador centraliza diversas operações e permite a visualização quase imediata do resultado, especialmente quando se conta com uma impressora de boa qualidade. Nesse caso, a elaboração de um layout é muito mais fácil do ponto de vista técnico. Todas as ferramentas reunidas em uma interface única, permitindo alterações infinitas sem acarretar grandes custos (descontado o custo inicial de aquisição do computador, dos insumos etc). Mudar meio ponto o tamanho de uma família tipográfica de uma massa de texto é um trabalho quase banal e o resultado é visto em segundos.

Se do ponto de vista técnico o computador facilita o trabalho, qual seria o impacto na capacidade de antever os resultados? Se o resultado é visto imediatamente, como elaborar essa “premonição” do que será construído? Como “prever”, se a visão é imediata, se a reação é quase simultânea ao pensamento?

Retomando a história do curso ministrado pela minha amiga, o que me parece é que os alunos de design estão sendo “atrapalhados” pelas facilidades que o computador apresenta para gerar alternativas. São tantas opções e a resposta é tão imediata que os alunos não parecem sequer imaginar o resultado antes de testá-lo. Pensa-se fazendo. Projeto e execução são simultâneos, são entidades quase indivisíveis sendo desenvolvidas ao mesmo tempo por alunos altamente dependentes do computador.

Já tive a oportunidade de perceber que as soluções muitas vezes são reflexo das possibilidades técnicas às quais os alunos têm acesso. Limitam-se a pensar dentro das opções que têm a disposição, ao resultado default. Ora, quando aluno, muitas vezes pensava no que queria como resultado e depois tentava descobrir como fazer aquele resultado concretizar-se. É certo que em inúmeros casos já pensava também no processo de construção, e nesse sentido limitava-me também às possibilidades técnicas a minha disposição. Mas isso não era necessariamente a regra…atualmente vejo, como professor, que muitos dos meus alunos não conseguem se arriscar fora das opções pré-programadas dos computadores e dos dispositivos de saída (impressoras, plotters, etc). Durante um semestre em que propus um projeto de sinalização, apenas um grupo arriscou-se a criar modelos utilizando madeira, tinta e pinceis. A primeira idéia que tiveram foi imprimir banners, como quase todos os outros grupos, o que no caso específico custaria uma pequena fortuna dado o tamanho da peça. Sequer pensaram em fazer a coisa manualmente, e quando o fizeram foi por sugestão minha, o que acabou se mostrando a melhor alternativa.

Não quero dizer que “nos meus tempos a coisa era melhor”. São tempos distintos, com realidades muito diferentes. É perfeitamente possível que alguns alunos desenvolvam uma capacidade projetual apurada, a despeito da lógica pré-programada dos computadores. Mas me parece que esses são minoria; a maior parte tem ficado a mercê dos resultados default, sem avançar muito no campo abstrato, de pensar antes de fazer, de ter em mente o resultado desejado antes da se perder na experimentação.

Não me parece sensato propor a exclusão do computador como ferramenta de trabalho, na elaboração de layouts. A questão é: como conciliar esses mundos? Como estimular os alunos para que projetem de fato, para que possam antever os resultados pretendidos em sua mente, e não apenas aceitar o resultado de um clique fortuito gerando uma resposta aleatória na tela do computador? Como fazer para que eles vejam o computador como mera ferramenta, e não como um oráculo que lhes aponte soluções para questões que sequer souberam como formular corretamente?

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