abril de 2008

Da capa de disco ao “cover flow”

Alguns dias atrás, eu estava na casa de um amigo – também designer – vendo a coleção de filmes que ele gravara em DVD. Os discos estavam organizados em uma pasta com divisões de plástico, algo semelhante aos antigos álbuns de fotos.

Reparei que em muitos discos ele havia feito desenhos que remetiam à identidade visual dos filmes. Uma tentativa de conferir alguma distinção entre os diversos DVDs sem capa. Meu amigo me disse que sua filha reclamava quando ele simplesmente anotava o nome do filme no DVD: “Pai, esse não vai ter desenho?”. O comentário deixava claro que a diferenciação visual facilitava a identificação dos discos. Como cada DVD tinha uma “cara” própria, sua localização era muito mais rápida para a filha de meu amigo, do que se tivessem somente o título escrito em letra de fôrma na sua superfície.

Sai dali pensando nas mudanças ocorridas no mercado fonográfico. Dos LPs aos CDs, iPods e download de músicas, muita coisa mudou, mas nossas necessidades de comunicação não se alteraram tanto assim. Ainda precisamos procurar as músicas que queremos ouvir nas nossas coleções. E nem sempre contamos com ferramentas de busca ou um acervo devidamente indexado para facilitar nossa vida!

A filha do meu amigo me fez perceber a importância das capas dos antigos LPs. Além de proteger os discos de acetato, elas serviam como elemento de identificação. Era comum o hábito de “folhear” uma coleção de discos, sem perder tempo lendo cada capa. Vale lembrar que nem todo mundo pensa como um arquiteto de informação, e por isso nem sempre as pessoas organizavam seus discos com alguma lógica. Para encontrar determinado disco podia ser necessário “folhear” o acervo olhando as capas – as lombadas das capas, finas demais, com tipografia em corpo pequeno, guardavam pouco espaço para diferenciação, a não ser pelas cores. Mas a gestalt da capa facilitava a busca: uma rápida olhada e era possível identificar o disco com segurança.

lombadas das capas de LPs
Lombadas das capas de LPs enfileiradas. As lombadas, apesar de apresentarem algumas informações, exigem um certo esforço cognitivo para identificar o disco. O espaço reduzido limita o uso de recursos visuais – basicamente, o título composto em tipografia com corpo reduzido, e uma grande chapada de cor.

capas de LPs
Capas de LPs enfileiradas. É possível identificar o disco olhando rapidamente a imagem da capa, sem ser preciso ler com atenção o que está escrito.

As capas ganharam outras funções ao longo do tempo: seduzir, entreter, criar uma relação entre a imagem que exibiam e as músicas do disco, estender a experiência apreendida através do som a outros sentidos. Buscava-se representar graficamente as sensações que a música provocaria. Havia discos com soluções gráficas inusitadas, com sobrecapas com cortes e facas diversas, criando encaixes que produziam novas leituras. A capa do Thick as a Brick, do Jethro Tull, apresentava um jornal de 12 páginas, com notícias, piadas, passatempos e até uma “matéria” avaliando o próprio álbum.

Dos LPs aos CDs, muitas mudanças. Agora embalagens de acrílico acondicionam os CDs e seus livretos. Estes trazem informações sobre a obra, mas não têm mais o papel de proteger o disco. Salvo raras exceções, o formato padrão das caixas, o tamanho reduzido, a limitação do número de páginas, tudo isso acabou limitando as soluções formais das capas de CD em comparação com suas antecessoras. Além disso, ao guardarmos os discos em pequenas prateleiras, praticamente aposentamos a possibilidade de “folhear” o acervo. Na maioria dos casos reconhecemos os CDs pela sua lombada, que apesar de garantir alguma diferenciação, permite pouca interferência gráfica e exige um esforço cognitivo maior para localização dos discos.

lombadas das capas de CDs
Lombadas das capas de CDs. Assim como nas lombadas dos LPs, o espaço reduzido limita o uso de recursos visuais. No caso dos CDs, geralmente armazenados em estantes, fica mais difícil olhar as capas.

Atualmente, com o formato MP3 e o uso cada vez mais intenso de aparelhos como iPod, os discos tornaram-se obsoletos, bastando ter um meio para reproduzir os arquivos digitais. Ganhamos espaço em nossas prateleiras. As músicas deixaram de ter um suporte físico, não necessitando de embalagens ou capas. Restaram listas de arquivos, diretórios de músicas em aparelhos cada vez menores, com telas que permitem exibir pouca informação.

Infelizmente, localizar um determinado disco em um diretório demanda maior esforço cognitivo do que folhear uma série de capas ou lombadas, uma vez que temos que ler com mais atenção as informações dispostas. Ao invés de imagens e cores, uma monótona lista de nomes cuja gestalt não favorece a diferenciação entre os itens.

Não foi por acaso que o cover flow do iPod Touch e do iPhone resgatou o espírito dos velhos LPs, oferecendo a possibilidade de “folhear” o acervo de álbuns armazenados. Esse mecanismo de interação usa a imagem como elemento de identificação. A Apple, empresa que é referência em soluções inteligentes de design, aposta em uma metáfora antiga para facilitar a busca de informações em acervos digitais.

interface do iPod mostrando o Cover Flow
O iPod Touch conta com o recurso “Cover Flow”, retomando a idéia de “folhear” as capas dos discos armazenados

Em mundo que caminha para a pervasividade computacional, com objetos podendo comportar sistemas computadorizados e trocar dados dinamicamente, sem dúvida o campo do design de interação ainda vai avançar muito. Nesse contexto, qualquer tentativa de prever o futuro é um exercício pouco preciso. Mas exemplos tão simples quanto a coleção de DVDs de meu amigo e o cover flow do iPod indicam que alguns princípios de design permanecem ao longo do tempo, independente dos avanços tecnológicos.

Em alguns casos, olhar o passado pode ser uma boa maneira de projetar o futuro.

Referência para este artigo

PINHEIRO, Mauro. Da capa de disco ao “cover flow”. Revista Webdesign, Rio de Janeiro, p. 66 – 67, 01 abr. 2008.

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3 comentários

  1. […] função nos atuais acervos digitais. Na revista não havia espaço para imagens, mas publiquei uma versão na seção artigos deste site com algumas fotos ilustrando o […]

  2. Interessante esse dissecação fazendo uma analogia a desevolução da importância dos álbuns fonográficos, no que diz respeito ao seu design como uma possível obra de arte que “cabe aqui na minha mão”. Penso que a embalagem mais perto de ser “tachada como uma obra-prima” seria o gatefold para os vinis e o digipack para os CDs. Existe uma problemática e eu tenho uma cisma que agrava tudo isso; por exemplo: as lombadas dos CDs principalmente os fabricados aqui na Terra Brasilis [se é que você me entende] são comumente desalinhados, além de portarem aquele código [“AA0000000” que feio… super-duper bizarro!] indicando a qual tiragem o CD pertence e a quantidade de cópias feitas para a mesma. Outro problema que noto é a qualidade inferior do papel de impressão das versões nacionais para álbuns que foram originalmente lançados lá fora. Isso quando a versão brasileira não vem amassada e/ou rasgada… tá na hora de alguém repensar o layout dos estojos de acrílico, hein!?

    José Júnior
    domingo, 3 de julho de 2011
    16:59
    permalink
  3. […] Da capa do disco ao “cover flow”. PINHEIRO, Mauro. 2008. […]

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