terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sistemas peculiares de navegação no espaço urbano

De volta a Vitória, revivo algumas particularidades desta capital que, de certa forma, mantém algumas características de cidade pequena. Em Vitória existe uma lógica de mapeamento do espaço urbano que é muito peculiar, e que causa estranhamento em quem vem de fora.

Aqui o nome das ruas é uma informação de pouca valia. As pessoas se orientam por outras referências. Lojas, supermercados, grandes marcos arquitetônicos são os pontos utilizados para construir o mapa mental da cidade, e servem de norte aos moradores.

Em cidades pequenas não é incomum que se utilizem referências como “a venda do Seu Antônio”, a “praça da feira”, “uma casa amarela com varanda na frente”. O número reduzido de ruas e pontos de referência torna possível que a maioria dos habitantes conheça essas informações. Da mesma forma, os nomes ‘oficiais’ das ruas muitas vezes não são importantes nesses lugares – especialmente quando mudam ao sabor dos desejos dos políticos locais.

Na minha volta para Vitória precisei procurar um apartamento para alugar. Me chamou atenção como o nome dos prédios é a informação principal nas imobiliárias. Diversas vezes, ao perguntar onde ficava o imóvel anunciado, me diziam “é no edifício Costa Nobre”. Quando eu dizia não fazer idéia de onde era o “famoso” edifício, me citavam pontos de referência. “Fica perto da DIT”, “é na rua do Debonis”. “Perto do Banco do Brasil”. “Na rua do Banestes”. Quando, enfim, eu pedia o endereço do imóvel, as atendentes precisavam buscar essa informação no sistema. Se perguntasse pelo número do prédio era sempre uma dificuldade. É como se essas informações não fossem importantes aqui.

Para quem vem de fora, o estranhamento é evidente. Apesar da capital do Espírito Santo ser uma cidade em franco crescimento, parece ainda utilizar a lógica das cidades pequenas. Mas com a profusão de prédios novos, lojas e as mudanças cada vez mais rápidas na ocupação do espaço, até mesmo os moradores começam a dar sinais de que esse sistema não basta.

É óbvio que, para quem não é da cidade, as referências utilizadas aqui têm pouco ou nenhum significado. O problema é que agora mesmo para alguns moradores essas referências começam a não serem claras. Desde a primeira vez em que vim para a capital capixaba, seis anos atrás, percebo como essa maneira de mapear a cidade gera conflitos, e desinforma mais do que ajuda. Já ocorreu, por exemplo, me pararem na rua para pedir informações sobre algum lugar. A pessoa queria ir para um determinado prédio, e me dizia o nome do prédio. Mas não tinha o endereço. Não sabia sequer o número do prédio, e assim não sabia se deveria subir ou descer a rua.

Isso foi em 2004. E agora, em fevereiro de 2011, ocorreu algo semelhante. Uma senhora me perguntou onde ficava um determinado órgão público, supostamente próximo de onde nos encontrávamos. Eu não fazia idéia, e perguntei se ela tinha alguma referência. A senhora não tinha o endereço, e não tinha qualquer outra referência. Vagava pelo bairro, e parecia acreditar que todos conheceriam o tal lugar.

De maneira semelhante, me vi na situação de tentar descobrir onde ficava um determinado prédio no Barro Vermelho, um bairro pequeno com não mais do que uma dezena de ruas. A corretora me informou apenas o nome do prédio e o nome da rua, uma vez que não estava mais na imobiliária e, portanto, não tinha como verificar o endereço correto. Ambos acreditávamos que essas informações seriam suficientes. Chegando ao bairro, ao perguntar aos moradores que passeavam por lá, ninguém sabia me dizer onde era o tal prédio. Como o prédio era um prédio novo, seu nome não era conhecido pelos vizinhos – e por que deveria ser? O nome da rua era desconhecido por todos. Fui salvo por um porteiro, depois de peguntar a diversos outros porteiros, sem sucesso.

Em Vitória é comum que os endereços incluam o nome do prédio. Ao nome da rua e número do prédio, acrescenta-se o nome do edifício, informação fundamental para os capixabas. Qualquer situação em que é preciso dar o endereço (por exemplo, para combinar a entrega de um eletrodoméstico), pede-se um ponto de referência e o nome do prédio.

É curioso como em cada lugar os moradores têm sua maneira de fazer o mapeamento do espaço. Em Copacabana, no Rio de Janeiro, ao dar o endereço de um imóvel localizado na Av. Nossa Senhora de Copacabana ou na Rua Barata Ribeiro, é comum que se informe também quais são as ruas transversais que delimitam aquele endereço. Isso porque somente o número do prédio é insuficiente para localizar rapidamente a altura em que este se localiza, ao longo destas ruas imensas que atravessam todo o bairro. Pergunte a um motorista de ônibus que trabalhe no bairro onde fica o número 720 da Nossa Senhora de Copacabana, e ele não saberá dizer. Mas se pedir que lhe avise quando chegar na Nossa Senhora de Copacabana na altura da rua Santa Clara, não terá problema algum em chegar ao local.

Quando viajei para Buenos Aires, resolvemos alugar um apartamento. O site que utilizamos dava como referência o nome da rua e um número que indicava a altura, sem no entanto informar o endereço exato – somente após firmar o negócio é que davam essa informação. Mas já era possível, por exemplo, identificar no Google Maps a quadra na qual se localizava aquele imóvel, e estudar suas cercanias: as informações fornecidas bastavam para sobrevoar o local pela Internet.

Em Londres, os motoristas de taxi também não utilizam somente os nomes das ruas como principal referência. Lá o código postal, equivalente ao nosso CEP, é uma chave para o mapeamento da cidade. Através da lógica de construção do CEP os taxistas conseguem localizar com razoável precisão uma área da cidade. Não sei bem como funciona, mas me parece que as letras iniciais indicam a região. Os números que se seguem delimitam com mais detalhe dentro daquela área. O nome da rua é o nível mais refinado. Quando estive nessa cidade, visitando uma amiga, tive essa experiência: o taxista não fazia idéia de onde ficava a rua, e me perguntou o CEP. Imediatamente pôs-se a caminho, e ao chegar no bairro, localizou facilmente a rua, e ficou irritado quando percebeu que passou do número, como se tivesse falhado em um jogo que ele mesmo criou. Aparentemente, o CEP é a chave necessária para que eles se localizem na cidade, mesmo sem conhecer todas regiões.

Acredito que o código postal seja um sistema universal, que poderia ser utilizado cotidianamente pelos moradores em cidades como o Rio, Vitória ou São Paulo. Mas por algum motivo, só é utilizado pelos funcionários dos Correios. Se soubessemos decifrar a lógica do CEP, provavelmente seria muito mais fácil nos deslocarmos nas cidades, tendo somente esta informação como referência.

Em Vitória a lógica peculiar de mapeamento dos espaços resiste aos sistemas padronizados e estabelecidos em outras cidades. Aqui, o Google Maps não conhece as referências utilizadas por seus habitantes. Por outro lado, as indicações dos moradores, por não fazerem parte do sistema oficial, não podem ser utilizadas em ferramentas como o Google Maps, ou mesmo nos aparelhos de GPS que já povoam os taxis do Rio e de São Paulo.

E o mais curioso é justamente quando o sistema “oficial” da cidade não se apropria da lógica natural de seus habitantes. A sinalização da cidade, o sistema de informação de linhas e rotas do transporte público no site da prefeitura – nada utiliza os códigos que estão vivos nas ruas. No sistema oficial, a lógica é a mesma de outras cidades, a despeito das características possivelmente únicas de como os capixabas fazem o mapeamento do seu espaço urbano.

Me parece uma oportunidade de investigação interessantíssima para o design de informação.

4 comentários
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4 comentários

  1. Uma amiga me passou um link interessante sobre o como os japoneses se orientam no espaço urbano. Vale conferir!
    http://www.youtube.com/watch?v=q1zh49J5rsg

    Mauro Pinheiro
    quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
    20:28
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  2. Bem interessante Mauro! Mas os pontos de interesse nos GPSs e a pesquisa por locais no Google Maps não seria funcionam como este tipo de mapeamento por referências?

    E, com a possibilidade de ser alimentado colaborativamente, propicia que a navegação pela cidade através desses artefatos seja mais próxima do modelo mental dos habitantes da cidade.

    Felipe Santos
    sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
    8:17
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  3. Mauro, adorei o artigo e o comentario.
    Interessantissimo como a percepcao visual do mundo varia entre cidades e culturas! Me lembrou a tese de um amiga em etno astronomia – ela estudou como os maias olhavam para o ceu. Eles nao viam as constelacoes como nos vemos – mas viam os espacos entre as estrelas. Uma “constelacao negativa”. O caso do Japao eh interessantissimo!
    Quanddo eu vim morar nos EUA, estranhei como o uso dos pontos cardeais eram usados para a localizacao de enderecos, tambem: “fica na esquina noroeste da rua X com a rua Y”. Que dor de cabeca para uma carioca, acostumada com “na frente da lagoa, entre rua X e Y”. Aqui tambem se usam “zip codes”, que sao como bairros.
    Adorei esse seu tema, nao tenho conclusao nenhuma, mas fiquei aqui pensando…
    Vitaria me parece que poderia usar “micro-ceps”, que poderiam ser adicionados a referencias existentes, para fazer com que um motorista de fora da cidade conseguisse localizar o endereco – o que nao me parece facil hoje…

    marina
    sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
    13:04
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  4. Em Beirut a população também não costuma saber o nome das ruas, orientando-se por prédios, lojas e outras referências.

    Beirut’s first street atlas

    Mauro Pinheiro
    quinta-feira, 18 de julho de 2013
    13:22
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