quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Sobre o iPhone

Muitos amigos meus “aderiram” ao iPhone. São entusiastas da tecnologia, quase todos trabalham na indústria de software (ou de mídia interativa, como preferirem). O produto é realmente incrível. Não se trata de um telefone, é um computador de bolso que permite, inclusive, realizar ligações telefônicas. E o projeto da interface é um espetáculo a parte.

iPhone

Como já discuti anteriormente (aqui e aqui), esse é mais um produto baseado no paradigma tecnológico do canivete suíço. Um mesmo aparelho contém inúmeras ferramentas/funções.

Acho o iPhone genial. Mas não comprei um até o momento por alguns motivos.

O primeiro motivo é que, como telefone celular, ele não me agrada. É grande e chama a atenção. Como eu ando muito de transporte público ou a pé, tudo o que eu não quero é um telefone de 400 dólares chamando a atenção da marginália que assola essa cidade. Um investimento não muito barato, comparado ao meu telefone que me custou 25 reais (apesar de na época ser vendido a 99) e me serve perfeitamente, como telefone. Tá certo que o iPhone não é “só” um telefone, mas ainda assim…

O segundo motivo é o preço. É um aparelho relativamente caro – talvez não tão caro quanto outros da categoria “smart phones”, mas de qualquer forma fora do meu orçamento. Levando-se em conta que não me sentiria a vontade de usar um telefone desses na rua, com medo de assaltos, eu provavelmente não compraria pelo “telefone”, mas pelo “computador de bolso” que ele é. Nesse caso, não poder usá-lo tranquilamente como telefone é um ponto negativo, uma infeliz contingência da minha situação de morador do Rio de Janeiro que não se isola em um condomínio fechado ou dentro de um carro. Estou mais sujeito à violência e esse é um fator a se levar em conta.

O terceiro motivo é que não sei se quero ter um computador comigo o tempo todo. Minha relação com os computadores é um pouco esquisofrenica. Gosto de usar computadores, e uso muito, desde a década de 80, quando computador pessoal era coisa raríssima aqui no Brasil. Acho que uso mais do que deveria. E essa possibilidade de estar “conectado” a qualquer tempo, em qualquer lugar, não me agrada tanto…possivelmente se eu tivesse um iPhone eu usaria bastante, ficaria mais tempo online. E não sei se quero isso. As vezes sinto que preciso me desligar um pouco…e por incrível que pareça, apesar de ser simples desligar um aparelho, não é tão simples se desligar do aparelho. Faz parte da lógica do próprio objeto esse uso, o fato dele permitir conexão constante acaba por induzir essa conexão ininterrupta. Os estudiosos de Media Ecology explicam isso melhor do que eu. Os artefatos criam um meio ambiente próprio e condicionam o seu uso.

Mas o motivo principal é que acho o iPhone um produto da categoria que gera estresse. Não somente pelo fato de ser um canivete suíço, de ter mais funções do que eu dou conta de usar. Não somente pelo fato de me colocar mais tempo conectado, mais tempo imerso no ciberespaço, mais tempo com minha atenção focada no computador e desligado do meu entorno. O que me incomoda mais é que ele segue a lógica da obsolescência de software. Segue o paradigma do produto como serviço, o produto fluido, em constante mudança.

Meus amigos que compraram iPhone estão nesse momento atualizando o software que faz o bicho funcionar. O mesmo se dá com o iPod. E como em geral acontece na indústria do software, as novas versões vêm com ‘bugs’. E algumas vezes, com as atualizações mudam algumas características da interface, fazendo com que seja necessário reaprender a usar o mesmo produto.

Sinceramente, eu não suporto essa lógica da atualização. Eu resisto até onde for possível a atualizar os programas do meu computador. Eles demandam máquinas mais poderosas, muitas vezes para fazer quase as mesmas coisas que versões antigas fariam. A cada atualização de software o computador fica mais pesado, lento, e acaba sendo necessário atualizar também o hardware. E com isso, lá se vai o dinheiro. É um processo que não tem fim, porque disso depende a indústria de informática.

Eu acho o fim da picada ter que ficar atualizando o software. Já pensou ter que fazer isso para um telefone funcionar? Eu sei, o iPhone não é só um telefone…mas, e se eu quiser usá-lo como um telefone e pra isso tiver que atualizar o software a cada ano? Me parece uma involução.

Pode ser o sinal dos tempos. Não se pensa mais tanto em produto, mas em serviço. Os produtos são meras atualizações de um projeto em constante desenvolvimento, um recorte temporal de algo que evolui ao infinito. Será que esse é o preço a pagar? Acho que não precisa ser assim…existem outros caminhos. Pelo menos é nisso que acredito, e é isso que move meu trabalho como pesquisador.

Enquanto isso, vou usando meu telefone simples, que me permite falar com quem eu quiser sem muita frescura, sem ter que atualizar coisa alguma. E o computador de bolso fica pra outro dia. Porque eu preciso ficar off-line de vez em quando.

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8 comentários

  1. Mauro,

    Aqui na terra da rainha o iPhone não pegou. Pelo menos ainda.

    Os motivos não são nem por uma questão de uso, mas de parcerias…

    Aqui o iPhone é vendido pela operadora O2. O bichinho sai por 250 libras, que dao 500 dolares ou 1000 reais. Já sai mais caro que nos EUA… Além disso voce tem que assinar um plano de 35 libras por mes, que tb nao e’ dos mais baratos.

    Aqui no UK ou voce paga pelo aparelho ou tem um plano mensal. Geralmente se voce tem um plano pos-pago voce nao paga pelo aparelho, e se voce tem um plano pre-pago voce compra o aparelho. E com o iPhone voce tem que fazer os dois! Pagar pelo aparelho e ainda pagar um plano pos-pago! Resumindo, não dá.

    No dia do lançamento do aparelho em Londres, diferente do que aconteceu nos EUA, tinha mais jornalista na frente da loja do que pessoas para comprar o aparelho. Eu até agora só vi um cara aqui no trabalho usando, e é uma agencia digital!

    O que vinga aqui é o Blackberry. Em um vagão de metro você encontra pelo menos 10 pessoas consultando seus emails.

    Não adianta ter uma interface revolucionaria, bom design de produto e hype na media. Tem que saber vender tb.

    Hiro Kozaka
    quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
    13:33
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  2. Hiro, creio que aqui a coisa seguiu o rumo do “jeitinho” brasileiro (nota: o limite entre o “jeitinho” brasileiro e a contravenção é muito difuso. Talvez por isso a corrupção seja tão praticada).

    O que as pessoas fazem é comprar o aparelho (nos EUA, porque o iPhone não é vendido no Brasil, a não ser no Mercado Livre, quer dizer, no mercado negro) e desbloquear na marra. Como você sabe, tem sites no mundo inteiro ensinando como fazer isso. Uma vez desbloqueado, ele funciona com qualquer operadora GSM aqui no Brasil, se não me engano.

    O passo-a-passo para destravar é assustador. Mais um argumento a favor da tese de que “ce n’est pas une téléphone”!

    UPDATE: no Mercado Livre não só é possível comprar um aparelho, como ele já vem desbloqueado. :-)

    Mauro Pinheiro
    quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
    15:03
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  3. Would you like to update this software now?
    1) Yes
    2) No, thanks. I like old fashioned software.

    Tinha algum programa com uma opção parecida com a 2. Não lembro mais qual.
    Sempre adorei :)

    Laura K
    quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
    15:29
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  4. Salve, Mauro Pin!

    O Hiro tem razão (claro). Aqui o iPhone não pegou muito não. Eu já vi umas duas pessoas usando na faculdade, mas uma delas é um alemão da minha sala, mega-nerd. Ele já desbloqueou o aparelho dele, mas tava reclamando que por isso não tava conseguindo atualizar o software. E não deve ter um mês que ele comprou o brinquedinho…

    Até me assusta a idéia de ter que atualizar software pra usar um telefone (OK, não é SÓ um telefone). Mesmo assim, já tenho muita coisa pra fazer na vida… Que saco! Quero descomplicar, não o contrário.

    Eu já usei esse software que a Laura K mencionou, mas não tô conseguindo lembrar qual é. Abaixo as atualizações!

    :-)

    beijos

    Laurinha
    quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
    21:55
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  5. Mauro.

    A quanto tempo você usa Apples?

    Updates de Cupertino são muito diferentes de Redmond.

    Fiz a minha migração esse ano pra Apple e todos os updates que fiz até hoje melhoraram o desempenho.

    Abraço!
    Vilson

    Vilson Martins Filho
    sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
    12:55
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  6. Oi Vilson, tudo bem?

    Não se trata de comparar as maças com outros. A idéia de precisar atualizar software é que me incomoda.

    By the way, o iPod de um amigo deu problemas depois da atualização do sistema. Coincidência?

    Meu primeiro Apple foi comprado em 1984, se não me engano. Um Apple II+. E na época eu rodava o MS DOS versão 1.1 nele. Apple rodando Microsoft, já naquele tempo. :-)

    Mauro Pinheiro
    sábado, 15 de dezembro de 2007
    23:30
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  7. (atualização 1.1.2 do keynote do Steve Jobs, hacked)

    It’s a revolutionary touchscreen interface. It’s an widescreen touchscreen interface. And it’s a breaktrough internet touchscreen interface.

    (ou)

    It’s a reactionary phone. It’s another new version of iPod. And it’s a closed and corporate-tied Mac non-3G internet device.

    Não demore, gPhone.

    Abraço, Mauro! 8)

    Nando
    segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
    14:59
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  8. Fala Mauro,

    Não sei se o iPhone vai pegar, aqui no Canadá ainda não tem. Hiro, não dá pra comparar com o Blackberry que já está no mercado há anos. É certo que falta uma melhor integração com e-mail corporativo, falta liberar a instalação de software de terceiros e outras coisas. Ainda é um produto 1.0.

    Mas o que eu acho mais importante é que, pela primeira vez, alguém ousou reiventar a interface do celular. Mauro, o seu celular de 25 Reais também é um computador de bolso, com agenda, jogos, browser, etc. Só que a interface é uma M total, daí você não usa nada além do próprio telefone.

    Fui chamado pra analisar a usabilidade de 41 modelos de celular há um mês atrás, os melhores modelos disponíveis aqui. Conclusão: é tudo um horror, tem uns dois ou três que se salvam.

    Por isso eu acho que, no futuro, com as melhorias inevitáveis que o iPhone vai sofrer, ele vai ganhar mercado, vai baixar de preço e vai servir de modelo pros outros. Assim como o iPod.

    Abs,
    Marcio

    Marcio K
    terça-feira, 1 de janeiro de 2008
    17:23
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