sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Cinema e imagens digitais

Assisti recentemente ao filme Três irmãos de sangue, de Ângela Patrícia Reiniger.

Betinho Henfil Chico Mário
Betinho, Henfil e Chico Mário.

A belíssima história dos irmãos Souza, a genialidade e o talento particular de cada um, sua luta, seu comprometimento com o Brasil e com o povo brasileiro são de fato um exemplo. A tragédia de suas mortes, fruto da irresponsabilidade do governo brasileiro, é um crime para o qual não houve julgamento ou sentença. Impossível não se comover com o filme.

A despeito de todas as qualidades do filme, durante a projeção me incomodou sobremaneira a baixa qualidade das imagens. O cinema nacional, como se sabe, não conta com uma estrutura semelhante a do cinema americano. A despeito da qualidade de nossos cineastas, a verdade é que o dinheiro anda curto, e muitos têm optado pela captação de imagens com câmeras digitais, que nem sempre primam pela qualidade de imagem. Entre fazer o filme com câmeras digitais menos poderosas e não fazer o filme, a opção parece óbvia. Sacrificar a qualidade da imagem é um preço justo, para um mercado cinematográfico quase quixotesco.

De qualquer forma, como o filme mistura imagens de arquivo (em diversos formatos, do vídeo à película) achei curioso perceber que a qualidade de algumas imagens antigas era ainda superior a qualidade das imagens captadas atualmente, com formato digital. Muitas cenas do filme apresentavam cores supersaturadas, baixa definição de grão, luzes estouradas em áreas de muito brilho, capacidade limitada de nuance dos matizes…as câmeras digitais têm uma série de limitações que me incomodam profundamente.

Já tinha tido a mesma impressão com o filme Cartola, documentário feito com muitas imagens de arquivo e algumas entrevistas contemporâneas, nas quais a qualidade das imagens é baixa. Esse parece ser o paradigma da produção nacional atualmente. São poucos os filmes que ainda resistem e conseguem fazer gravações em película. A maioria atualmente tem optado pelo formato digital, a película só é utilizada no final do processo, quando o filme é preparado para distribuição. Mas mesmo no formato digital, existem diferentes opções de câmeras, com qualidade muito superior a que parece ter sido utilizada nos filmes brasileiros Cartola e Três irmãos de sangue.

A produção de imagens digitais é cada vez maior atualmente, não só no cinema. As câmeras digitais de média/baixa qualidade se espalham cada vez mais, e a era dos fotogramas parece ter os dias contados…alguns laboratórios fotográficos estão inclusive deixando de fabricar papéis e químicos necessários para as ampliações fotográficas tradicionais, especialmente em preto e branco. O que era corriqueiro começa a ficar tão raro que se torna artigo de luxo. O mesmo processo ocorrido com o Super 8, formato relativamente popular na década de 70, um formato quase caseiro de produção cinematográfica e que atualmente é uma raridade, tendo um custo altíssimo para ser utilizado. Infelizmente, a qualidade da imagem começa também a ser artigo raro – ou caro. Ou se tem um equipamento antigo, para o qual a produção da imagem começa a se tornar rara (dada a falta de laboratórios para gerar as cópias), ou se tem equipamentos de ponta, caríssimos, que têm ótima qualidade apesar do formato digital.

As pessoas parecem não se importar com isso. Câmeras digitais em celulares, câmeras digitais com baixa resolução, impressões de fotos em papel de baixa qualidade…nada disso parece incomodar o cidadão “comum”. Como designer, me sinto aflito vendo a produção de imagens de nosso tempo ter uma queda de qualidade tão grande. O registro de nosso tempo está sendo feito de maneira tosca, e para isso não há remédio.

Se as fotografias que registraram o cotidiano do começo do século passado permanecem com alta qualidade até os dias de hoje, acho pouco provável que a produção contemporânea, feita pelo cidadão comum, resista tanto tempo. É curioso que ao mesmo tempo em que a tecnologia avança, tenhamos um retrocesso na qualidade da produção de imagens.

Que venham as novas gerações de máquinas digitais, com melhor qualidade e fidelidade de reprodução de luz e de cor. E que com elas possamos ter imagens de qualidade novamente!

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1 comentário

  1. Talvez este seja realmente um período a ser apagado dos registros…

    Bruno Pinheiro
    sexta-feira, 28 de setembro de 2007
    14:18
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