quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Qual o futuro dos computadores?

Clorisval Júnior deixou um link curioso nos comentários de um post anterior. Jealous Computers, uma campanha da Nokia que pretende posicionar um de seus mais recentes aparelhos (Nokia N95) em um novo patamar na evolução dos computadores. Não por acaso, eles evitam chamar este aparelho de “telefone celular”, preferindo usar o termo “multimedia computer”.

Por trás da divertida campanha, uma discussão interessante sobre o futuro dos computadores. Há quem acredite que a tendência é que no futuro os aparelhos agreguem cada vez mais funções. Seguindo essa linha de raciocínio, muitos apostam nos telefones celulares como plataforma mais provável para o desenvolvimento dos computadores do futuro. É bom lembrar que mesmo em países com uma enorme quantidade de pessoas com baixa renda como o Brasil, o telefone celular é usado por grande parte da população. O hábito de usar o telefone já é uma realidade, o celular é um aparelho familiar para muitos. Uma vez que na atualidade a “cibercultura” valoriza cada vez mais a mobilidade, leveza, acesso à rede, conexão a todo momento, o telefone celular parece realmente um caminho interessante para o desenvolvimento futuro dos computadores.

Mas uma coisa é ter o aparelho. Outra é saber usá-lo. Não há como garantir que as pessoas venham a usar seus telefones como computadores, que venham a usar todas as funções disponíveis (Internet via celular, câmera de video/foto, agenda telefônica, SMS, MMS etc.) plenamente. Até o momento ainda é preciso manipular telas, menus, interfaces diversas…os telefones ainda são complicados de usar. Creio que mesmo o iPhone da Apple, que de fato é um pequeno computador, dificilmente será usado plenamente por pessoas pouco familiarizadas com sistemas operacionais, apesar da excelência da Apple em design de interação. É provável que a maioria dos leitores desse blog não tenha qualquer dificuldade em desvendar os mistérios das interfaces do iPhone (ou do Nokia N95), mas o cidadão “comum” em geral não tem tanta familiaridade em navegar em sistemas operacionais, limitando-se na maioria das vezes a repetir operações aprendidas com alguma dificuldade. Qualquer coisa fora do roteiro é motivo de stress e insegurança. Para muitos, os celulares “multimedia computers” não passarão de telefones. Pequenos e notáveis computadores, usados somente para receber e fazer ligações telefônicas.

A analogia que mais me agrada nessa história dos telefones / multimedia computers é a do canivete suiço. O canivete suíço clássico contém diversas “ferramentas”, parece uma solução ótima para todos os problemas. Mas quando precisamos de fato usá-las, elas não passam de “quebra-galho”, arremedos das ferramentas que pretendem substituir. Por melhor e por mais prático que seja ter tantas opções reunidas em um único aparelho, nada substitui a ferramenta desenhada especialmente para um fim específico. E é por isso que todos temos uma tesoura “de verdade”, um saca-rolhas “de verdade”, uma chave de fenda “de verdade”, ao invés de termos somente um canivete suíço. Este acaba funcionando em situações nas quais não podemos levar as ferramentas conosco, optando pela versão modesta do canivete, que no final das contas nem sempre resolve o problema.

treo canivete suíço
É um telefone ou um canivete suíço?

E aí que entra a segunda vertente para o futuro dos computadores. É uma vertente pouco falada, porque interessa pouco comercialmente – ou melhor, os grandes conglomerados que estão por trás da indústria de telefonia celular e de computadores em geral não se interessam por esse caminho. A idéia é muito simples: ao invés de um aparelho com N funções, N aparelhos com funções específicas, mas facilmente integrados e compartilhando dados e informações. Assim teríamos aparelhos com interfaces mais simples, porque seriam feitos especificamente para uma função.

Essa vertente tem raízes na “calm technology”, uma tecnologia que demanda pouco esforço cognitivo. Uma tecnologia que de tão simples a gente nem percebe que está usando.

É uma idéia antiga. O artigo Designing Calm Technology, de Mark Weiser e John Seely Brown é uma boa introdução a esse conceito.

Particularmente, sou favorável a essa idéia. Mas tem muita gente que aposta no caminho inverso. Especialmente as pessoas ligadas às empresas de telefonia celular. Até o momento, o que eu vejo no mercado são computadores de bolso ruins de usar, ou telefones celulares que acabaram ficando complicados sem necessidade.

Mas, o futuro é sempre inesperado e é cada vez mais dominado pelo que é melhor para as empresas, e não para as pessoas.

É possível que venhamos todos a usar canivetes suíços.

4 comentários
Categorias:
permalink

4 comentários

  1. Oi Mauro,

    Discordo um pouco do seu ponto de vista. Sobre a dificuldade das pessoas em usar a interface e o celular “complexo” voce esta’ vendo com o olhar de hoje. Digo, voce esta’ comparando com o usuario entre 25-40 anos de 2007. Eu canso de ver adolescentes destrincharem todas as funcoes do celular sem sequer pegarem o manual. E’ instintivo para elas assim como e’ para eu ou voce. Elas ja’ nasceram com um computador na frente. Os adolescentes aqui de Londres usam a porcaria do MP3 as alturas, enviam SMS e batem foto de tudo. No minimo estas tres funcoes sao campeas, mas nao duvido que eles saibam usar o bluetooth, WAP etc. so’ nao o fazem. O publico futuro proximo, daqui a 5 a 10 anos, sao os adolescentes de hoje entao nao devera’ existir este gap de interface/conhecimento. Quanto ao canivete suico eu acho que existem segmentos de mercado. Vai haver consumidor para o canivete e para os devices especificos. Agora, qual vai vingar com a maior fatia de mercado e ser o produto de massa e’ outra historia. Eu acho que tudo depende da Killer App. Celular vingou pois a killer app e’ a mais basica: fazer ligacoes. Camera fotografica e’ a mesma coisa: bater fotos. MP3 tocar musica e assim por diante. Tanto e’ que os celulares que batem foto, tocam musica e claro, fazem ligacao e SMS, estao vendendo que nem pao quente. Todo pobre quer ter um celular fantastico, afinal e’ simbolo de status, a unica barreira e’ realmente o preco. Diminuindo o custo e assim o preco estes celulares em um futuro proximo chegam a massa. Product Life-cycle, e’ marketeiro mas e’ um fato. :) Hoje mesmo vi um video de um soldado da Forca Nacional mostrando as condicoes precarias e vergonhosas em que eles estao. Um soldado, que nao deve ganhar muito, com uma camera digital que fez upload para o Globo. Deu mole foi ate’ ele que editou e colocou o mosaic para nao mostrar a identidade dos amigos. Enfim, como voce mesmo viu o povao ja’ usa Internet, Orkut bomba na favela, computador nao e’ mais maquina de escrever e a tecnologia e’ isso ai’. Outro ponto, e’ facil dizer mas.. quem dita o que da’ certo na maioria das vezes e’ o consumidor e nao a empresa. Nao ha’ campanha publicitaria, marketing ou promocao que faca alguem comprar (pagar caro) em algo que realmente ela nao queira. Pode funcionar a curto prazo mas a medio/longo prazo nao cola. O mercado dita os produtos mais do que as empresas.

    Hiro Kozaka
    sexta-feira, 3 de agosto de 2007
    7:13
    permalink
  2. Salve Hiro!

    Acho que a gente não chega a discordar, o assunto é que tem muitos aspectos “escorregadios”. E você tem uma familaridade maior com “business”, um olhar bem distinto do meu – o que é ótimo, porque esse tema depende fundamentalmente das forças do mercado.

    É uma tarefa ingrata tentar prever o futuro. Mas de qualquer forma, eu continuo achando que haverá sim uma parcela grande de pessoas que não vão se sentir a vontade usando aparelhos com muitas funções. Independente do estado atual, e de haver sim pessoas para as quais computadores são tão “complicados” como televisão, liquidificador e qualquer outro eletrodoméstico, o fato é que sempre vão existir pessoas que têm dificuldade em usar tecnologia – independente de terem nascido com essa tecnologia ao seu alcance ou não. Tenho muitos amigos que não conseguem usar qualquer aparelho eletrônico um pouco mais complexo, e não são pessoas com problemas de acesso à tecnologia ou falta de necessidade em usá-la. É uma característica.

    Eu acho que sempre haverá um gap de interface/conhecimento, porque a tecnologia vai avançar. Quando a gente estiver familarizado com um padrão, novos padrões mais complexos poderão aparecer – dentro desse modelo de desenvolvimento que concentra funções e torna os aparelhos mais complexos. É claro que pra muita gente não haverá problema em desvendar os mistérios, e sim, os adolescentes de hoje com certeza terão maior facilidade do que nós no futuro. Mas nós estaremos por aí, e pior, aquelas pessoas que hoje têm dificuldade também estarão, e vão ter que se virar pra usar essas máquinas, que muitos adolescentes usam sem problema. E aí? Os trintões que hoje têm dificuldade com aparelhos multi-funcionais daqui a 30 anos terão 60, mas estarão por aí, consumindo tecnologia, precisando usar os aparelhos da mesma forma. Por que não pensar em uma tecnologia mais amigável, menos complexa?

    Essa vertente de tecnologia “for dummies” vem sendo explorada, mas por enquanto sempre com um “quê” de curiosidade, nada que a gente possa efetivamente ver como um novo paradigma de como as coisas poderiam ser. Mas sem dúvida me parece um caminho mais “user-friendly” do que a tendência atual, que lança cada vez aparelhos mais complexos e que demandam um bom tempo para dominar as funções básicas.

    Um exemplo disso: atualmente se você quer saber a previsão do tempo, o que fazer? Ou apelar para o jornal, ou ligar a televisão no canal do tempo (que no Brasil não existe), ou acessar uma fonte de informções (via celular, via web). Cada uma dessas opções demanda algumas etapas e uma busca de informações, uma postura ativa que efetivamente faz com que você tenha que acionar coisas, vasculhar, interpretar dados etc. Recentemente a Ambient Devices lançou um guarda-chuva que prevê quando vai chover. O cabo tem um rádio que se conecta a um serviço de previsão de tempo, coleta informações e altera o estado do guarda-chuva de acordo com as respostas recebidas. Para o usuário, isso é transparente: quando vai chover, o cabo fica piscando. Quanto maior a intensidade da chuva que virá, mais rápido o intervalo entre uma piscada e outra. A pessoa não precisa ter idéia do que acontece nos bastidores, a “tecnologia” está camuflada, incorporada num artefato tão mundano quanto um guarda-chuva.

    Esse é um outro caminho. A tecnologia sendo usada de maneira inteligente, sem exigir grande esforço cognitivo. É algo aparentemente tão simples quanto aquele galinho que mudava de cor quando mudava o tempo, mas infinitamente mais complexo! Mas, para o usuário final, é a mesma coisa! :-D

    Concordo com você que existem segmentos específicos, e que é muito difícil dizer se um ou outro modelo de desenvolvimento tecnológico vai se estabelecer como padrão, como “produto de massa”. Mas acho o caminho da “calm technology” muito mais interessante para as “pessoas comuns”. Eu mesmo, que estou longe do ser o padrão básico, confesso que já não tenho mais paciência para aprender a usar tantas interfaces diferentes o tempo todo – e é por isso que sempre compro celulares da Nokia, para me sentir mais “em casa”.

    Penso que, a despeito de termos cada vez mais pessoas familarizadas com tecnologia, sempre teremos “outsiders” e isso não me parece justo. É uma situação de dependência que se cria, sem necessidade…basta ver os velhinhos nos bancos, nos caixas automáticos.

    Os velhinhos de amanhã seremos nós, caro Hiro!! E eu quero poder ter coisas simples pra usar. ;-)

    Mauro Pinheiro
    segunda-feira, 6 de agosto de 2007
    12:47
    permalink
  3. Hoje as empresas estão olhando mais para esse problema de cognição e não teremos mais os problemas que tinhamos em relação a isso, por exemplo ainda hoje temos 2 ou 3 controle remotos e não usamos 1/10 das funcionalidades e o mesmo acontece com muitos celulares (obviamente que depende do público alvo). As empresas estão dando-se conta disso inclusive o próprio iPhone já pensado para ser um PC porém sem perder o “celular”.

    Acredito que teremos mercado para as 2 formas tanto um celular que seja um PC qto celulares que não fazem mais nada do que falar. Isso pq hoje as empresas querem chegar ao máximo de pessoas e há uma fatia grande de mercado para esse tipo de device. Vide a evolução da programação na TV, a algumas décadas não se pensava no público alvo e/ou telespectadores como veículo de mídia em massa, hoje se nota bem a diferença da linguagem da tv.

    André
    segunda-feira, 22 de outubro de 2007
    16:43
    permalink
  4. Eu li este site achei muito enteresante ;parabens vc ;ASS:thereza; SP;;;

    Thereza
    quarta-feira, 31 de outubro de 2007
    13:23
    permalink

Fique à vontade, faça o seu comentário!




Seu comentário: