quinta-feira, 24 de maio de 2007

Reinventando a indústria cultural

Já é quase um lugar comum apontar as “facilidades” que existem hoje para tornar público nosso trabalho ou nossas idéias . A internet deixa isso bem evidente: diversas ferramentas de publicação, blogs, fotologs, Youtube…essa conversa toda de “conteúdo auto-gerado” já não é novidade – chega mesmo a ser chato ver isso tratado ainda hoje como matéria de capa das revistas mais comuns.

O que não se ouve falar tanto é do que acontece FORA da Internet. Em geral as pessoas tendem a simplificar as coisas e achar que os fenômenos são isolados, quando na verdade tudo está conectado. Nos tempos atuais, a “rede” tem que ser vista e pensada de forma ampla, muito além da Internet – que é a sua expressão mais evidente, não há duvida, mas não se restringe a isso.

A facilidade de “publicação” de conteúdo vai além dos blogs: hoje temos meios mais acessíveis para produzir CDs e DVDs; filmadoras digitais a preços cada vez menores, dispensando custosos processos de revelação; programas de edição rodando em computadores pessoais; gráficas rápidas de pequena tiragem com qualidade cada vez maior. A facilidade de produção de áudio-visual é muito maior do que há 10 anos atrás. E com isso, parece óbvia a tendência a aumentarem as produções independentes. O grande problema não é mais produzir, mas sim como veicular, como distribuir essa produção. Em se tratando de áudio-visual, a web ainda é muito limitada como plataforma de exibição e de distribuição…os arquivos são pesados, e no final das contas dá muito trabalho converter arquivos para serem exibidos fora do PC, que ainda é uma plataforma desconfortável para se ver vídeos ou ouvir música. O sucesso do iPod é uma mostra de que é necessário libertar as pessoas das cadeiras – e não por acaso nas versões mais recentes percebe-se uma preocupação em exibir vídeos com qualidade. A mobilidade é uma peça-chave para o futuro – mas isso é assunto pra outro dia.

De qualquer forma, a produção de áudio-visual independente anda em paralelo aos esquemas oficiais de distribuição. Estúdios, gravadoras, distribuidores de cinema estão sendo substituídos pelo mercado popular, comumente taxado de “pirata” pelos esquemas oficiais que não conseguem acompanhar a mudança de paradigma em curso.

A matéria “A indústria das ruas” publicada na Carta Capital apresenta informações interessantíssimas sobre o assunto (recomendo enfaticamente a leitura).

Por exemplo, você sabia que a a indústria cinematográfica da Nigéria, na África Ocidental, produziu 1.200 filmes em 2004, e gera atualmente cerca de 1 milhão de empregos, mobilizando 200 milhões de dólares anuais? Segundo a reportagem, a Nigéria, um país que sequer tinha salas de cinema há alguns anos, atualmente é a terceira maior indústria de cinema do planeta, atrás dos Estados Unidos e da Índia!

A produção cinematográfica nigeriana em geral é independente e o principal canal de distribuição são DVDs, vendidos em bancas de rua. As salas de cinema vieram depois, com o sucesso das vendas de rua. A reportagem aponta ainda o caso do Pará, no norte do Brasil, onde artistas à margem da indústria fonográfica utilizam a venda de CDs e DVDs em bancas de rua como principal canal de distribuição.

Apesar da indústria fonográfica chamar essa produção de “pirata”, a verdade é que não se enquadram nessa definição, como destaca a reportagem:

A questão da pirataria está posta, mas por um prisma ainda mal compreendido: segundo a pesquisa da FGV, 88% dos artistas de tecnobrega nunca tiveram contato com a indústria fonográfica oficial. Como não têm contrato com gravadoras nem se filiam às sociedades arrecadadoras de direito autoral, não se pode dizer que seus produtos sejam “piratas”, já que não se trata de cópias não autorizadas de obras originais […]

A rede é dispersa, e suas conexões, que tendem ao infinito, são pouco claras. Mas sem dúvida a indústria cultural que existe fora da web passa também por uma profunda mudança.

3 comentários
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3 comentários

  1. Finalmente dando um gas nessa feira bolorenta…

    Bruno Pinheiro
    sexta-feira, 25 de maio de 2007
    12:13
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  2. vc ja ouviu teatro mágico?

    Maria José da Silva
    sábado, 26 de maio de 2007
    14:59
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  3. Maria José, nunca ouvi falar do teatro mágico. Se tiver alguma referência direta na web, mande para cá! :-)

    Mauro Pinheiro
    sábado, 7 de julho de 2007
    1:34
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