quarta-feira, 16 de maio de 2007

Formatação sintática-visual de texto

O assunto apareceu simultaneamente em algumas listas de discussão que assino (SIG-IA-L e MEA mailing list). A empresa Live Ink desenvolve há alguns anos pesquisas sobre a influência da formatação do texto nos processos de leitura e compreensão. O argumento principal é que o formato de “blocos”, que estamos acostumados a usar na composição de nossos de textos, não facilita a leitura. Nosso campo visual teria limites, como se somente uma região circular da massa de texto estivesse realmente em foco em um determinado momento. O restante, embora percebido simultaneamente, não seria o foco da leitura naquele instante. Esse entorno percebido seria “descartado”, através de um esforço cognitivo constante de desprezar o excesso de informação recebida.

os limites do campo visual
Os limites do campo visual, em formato circular.

De acordo com a pesquisa, esse processo de recepção de informações e subsequente eliminação do excesso, prejudicaria o ritmo de nossa leitura e diminuiria nossa capacidade de compreensão do texto.

A empresa Live Ink trabalha na criação de um algoritmo que cria uma nova formatação de texto, tentando otimizar a nossa leitura a partir dos limites da nossa visão. A idéia é “quebrar” o texto em unidades menores. O algoritmo lê, interpreta e reformata o texto, selecionando os pontos de quebra de linha, baseado no conteúdo. Daí o nome “Visual-syntactic text formatting”.

comparação de antes e depois da formatação sintática-visual
O mesmo texto, antes e depois da formatação sintática-visual

A aplicação pretendida é principalmente para textos online, exibidos em tela. Não sei se eles pensam em usar essa tecnologia para livros e impressos em geral (o aumento de consumo de papel necessário para publicar um livro nessa formatação deve tornar proibitivo o seu custo).

O trabalho já existe há alguns anos, e pesquisas sobre a eficiência de sua aplicação foram conduzidas. Um documento detalhado sobre o assunto pode ser conferido aqui.

Lendo o artigo, fiquei com algumas “pulgas” atrás da orelha. A primeira dúvida é sobre a real eficiência dessa proposta. O material que eles colocam online como exemplos não me fizeram crer que a nova formatação seja de fato mais eficiente. Mas isso realmente é difícil de julgar com apenas alguns poucos exemplos. Um uso contínuo do software seria necessário para avaliar com mais precisão.

A segunda é sobre as influências diretas do projeto tipográfico na facilidade de leitura e compreensão do texto. Como designer, a primeira coisa que me veio a cabeça foi exatamente a variável “qualidade do projeto tipográfico”. Quem entende do assunto sabe que é óbvio que um texto mal composto em uma página é um fator que pode dificultar muito a leitura – alguns livros chegam a afugentar o leitor, tal o esforço exigido para sua leitura, independente do seu conteúdo ser de fácil entendimento. O design gráfico há alguns séculos lida com essas questões; do desenho da letra aos ajustes de entrelinha, espaço entre as letras, margens, tamanho do corpo, comprimento da linha de texto…diversas variáveis estão em jogo quando falamos em conforto visual na leitura de um texto. Basicamente é essa a eterna busca do projeto tipográfico, e essa é uma questão sensível no campo da comunicação visual.

A pesquisa parece não dar conta da complexidade inerente ao projeto tipográfico, ao reduzir a questão da facilidade de leitura e compreensão aos aspectos fisiológicos do campo de visão. Basta ver os exemplos presentes no artigo citado. Os textos de “antes” da formatação sintática-visual são tão mal compostos que fica difícil crer que a melhora na leitura se deva à formatação sintática-visual, e não ao péssimo projeto tipográfico anterior a ela. Em outro exemplo, a diversidade de soluções tipográficas é tal que chega a ser impossível comparar A e B.

exemplo de texto antes e depois da formatação sintática-visual
No exemplo acima, apresentado na conferência Digital Book 2007, as variações tipográficas são tantas que fica impossível isolar a influência da formatação sintática-visual na leitura e compreensão do texto.

Durante a pesquisa foi feito um teste com alunos do ensino médio. Eles tiveram que ler textos exibidos em computadores, mas a descrição da formatação utilizada para compor o texto sugere que o projeto tipográfico foi desprezado nos testes:

The electronic presentation of both formats (standard and cascaded) used black, monochrome 15-point font, tan background, and single interline spacing; the standard block formatting was approximately 70 characters wide, with left-only justification.

Qual a família tipográfica utilizada? 15 pontos para o corpo da letra pode ser um tamanho confortável para algumas famílias tipográficas, enquanto para outras pode ser insuficiente. Qual a relação entre a medida da linha e o tamanho da letra? O texto, alinhado à esquerda, foi hifenizado, houve quebra de palavras? E afinal, por que usar entrelinha simples?

Me parece que de saída temos um bloco de texto com um projeto tipográfico mal resolvido. Se o texto anterior à formatação sintática-visual era uma peça de terror, é de se supor que ao quebrar o texto em unidades menores, a dificuldade de leitura seja “mascarada”. Mas se isso é mérito da nova formatação ou demérito da falta de projeto tipográfico do texto original, é impossível saber.

Esse é um problema típico de algumas pesquisas supostamente científicas. O experimento parece desprezar variáveis fundamentais que influenciam sobremaneira o processo de leitura e compreensão de texto. Pensar a “formatação” do texto é muito mais do que simplesmente dizer que é um “texto alinhado à esquerda com espaço entrelinhas simples”.

Penso que a Live Ink deveria chamar alguns designers para compor seu grupo de pesquisa.

Em tempo: antes que me acusem injustamente, fiquei extremamente impressionado com a pesquisa (vale a pena ler o documento na íntegra). É possível que, de fato, existam formas ainda pouco exploradas para compor textos que facilitem o processo de leitura, e nesse caso o trabalho me parece realmente inovador. Mas de qualquer forma é necessário destacar os pontos que me chamaram a atenção, e que eventualmente apontam problemas metodológicos na condução do experimento que podem comprometer a validade dos resultados.

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