quarta-feira, 21 de março de 2007

O homem do hipertexto

Ontem (20 de março) tive o privilégio de assistir ao vivo uma palestra de Ted Nelson, o homem que praticamente “inventou” o conceito do hipertexto, uma das características mais significativas da primeira fase da world wide web. Ted esteve no Rio para a abertura do FILE 2007 – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica.

Ted Nelson

Fiquei com a impressão de que a apresentação do criador de Xanadu foi um pouco melancólica…depois de apresentar uma retrospectiva de toda a história e filosofia que guiou o projeto original, o pai do hipertexto apresentou um pouco do que anda fazendo – uma evolução da idéia original. Na primeira parte da conversa achei genial a crítica ao sistema de hierarquia de arquivos em estrutura de diretórios, que baliza toda a computação como conhecemos hoje. Para quem pretende um sistema de dados relacional, em que qualquer elemento ou partes dele podem ser associados a outros elementos, de fato, a rigidez de uma estrutura baseada em hierarquia de diretórios é uma âncora absurdamente pesada e anacrônica. Mas na segunda parte da apresentação, a conversa descambou para algo bem distinto do que eu imaginava.

O tom da conversa foi muito próximo a uma apresentação de software, como seria se fosse a demonstração do nova versão do Photoshop, da Adobe…discurso auto-promocional, tentando convencer a audiência de que estávamos vendo um produto indispensável para nossas vidas.

A conversa foi recheada de críticas sutis, algo rancorosas, à outras figuras que mudaram a maneira como a sociedade pós-industrial se comunica hoje em dia. Não sobrou ninguém intacto: Xerox Parc, Steve Jobs, e obviamente Bill Gates…sobrou até para Tim Bernes-Lee (o que inventou a Web, o sistema que permite a leitura e compartilhamento de hiperdocumentos, como esse blog aqui). Embora não tenha efetivamente falado “mal” dessas pessoas, muitas vezes os comentários eram bem debochados – como o fato de chamar o “GUI” (Graphic User Interface) de “PUI” (Parc User Interface), cuja sonoridade em inglês sugere algo grotesco.

Em que pese a genialidade do senhor Nelson, fiquei com a impressão de que no fundo estava vendo um senhor amargurado com o fato de tanta gente ter ficado milionária a partir de sua proposta original, e ele continuar sendo pouco conhecido, e pior ainda, não ter enriquecido com essa história toda. E ainda, me surpreendi com o fato de ver que o sujeito ainda está em busca do mesmo projeto da década de 60. Aparentemente, colocando-se na posição de único ser pensante a renegar o status quo do mundo da computação, Ted Nelson vai na contramão e toca a mesma tecla há 40 anos. O projeto que vi é conceitualmente o mesmo que ele descrevia em 1960. De lá para cá, o mundo mudou. Menos para Ted Nelson.

De qualquer forma, vale conferir: Zig-Zag e Xanadu Model.

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