terça-feira, 1 de agosto de 2006

Manifesto de um professor indignado

Como a maioria dos leitores regulrares desse blog sabem, sou professor universitário, servidor público do governo federal, atuando na Universidade Federal do Espírito Santo. Como tal, sou cobrado por meus pares, pela UFES e pelo próprio governo federal por minha produção científica. Espera-se do professor universitário não somente que lecione, mas que tenha alguma produção de pesquisa, atividades de extensão etc.

No Brasil existe um sistema produtivista, que fomenta a produção científica em quantidade. Em qualquer concurso público ou privado para a área acadêmica, um dos critérios de avaliação é a produção…não tanto a qualidade, mas a quantidade. Aos olhos de qualquer instituição – especialmente o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, que fornece parte das bolsas pesquisas nacionais – valoriza-se a quantidade de artigos, pesquisas cadastradas etc. As métricas para avaliar a qualidade dos trabalhos nem sempre são claras, contando com a contribuição de pareceristas ad-hoc nas áreas do saber em avaliação. Mas a quantidade de trabalhos, por outro lado, é vista com bons olhos.

Esse “produtivismo” afeta todo o sistema de ensino. Se não, vejamos.

O salário de um professor assistente da UFES, como eu, é de 700 reais. O restante, são gratificações, que no final dão um salário líquido de 2700 reais. Um dos problemas dessa situação é que essas gratificações não são incorporadas ao salário. Qualquer aumento que se dê, será em cima do salário, descontadas as gratificações. 700, e não 2700.

Um dos critérios para definir o valor da gratificação é a produção do docente. Quantas pesquisas ele fez, quantos artigos publicou, quantos livros escreveu, de quantas bancas participou, quantos congressos assistiu, que projetos fez etc. Quanto mais o professor produz, maior a gratificação – que tem um limite. E normalmente, espera-se uma produção diversificada.

É natural que se espere que parte dessa produção científica seja veiculada, publicada. Entretanto, ao contrário do que parece, dada a enormidade de livros que inundam o mercado editorial a cada ano, é extremamente difícil ter um trabalho publicado em livro. Não tanto pela produção do objeto, uma vez que existem alternativas cada vez mais atraentes no mercado de gráficas rápidas, impressão sob demanda etc. A dificuldade é conseguir uma editora, que garanta a veiculação, caso contrário têm-se um livro ao qual ninguém tem acesso. Em função disso, o caminho natural para divulgação dos resultados das pesquisas são os congressos acadêmicos.

Por isso mesmo, para ter minha produção publicada, costumo participar de eventos desse tipo. Ao contrário de alguns colegas, faço questão de ir aos congressos, para ver as apresentações dos outros participantes – hoje em dia, é possível apresentar um artigo sem sair de casa, através de webcams conectadas em tempo real com a platéia…mas confesso preferir assistir ao vivo, e apresentar ao vivo.

Neste mês irei ao P&D, congresso de pesquisa e desenvolvimento de design, que ocorrerá em Curitiba, apresentando um artigo sobre um projeto de extensão que desenvolvi na UFES.

Custo da brincadeira:
300 reais de inscrição
890 reais de passagem (Vitória-Curitiba-Vitória)
210 reais de hospedagem (70 reais a diária mais barata)
50 reais de alimentação (presumível)
Total: 1450,00

É de se esperar que a Universidade, que cobra uma produção científica e também a veiculação dessa produção, e que cobra igualmente a nossa participação em eventos acadêmicos dessa natureza, apoie de alguma forma nossa participação. Assim sendo, solicitei ajuda de custo para pagar a passagem e a estadia. O custo da inscrição saiu do meu bolso.

Quanto recebi?

Zero.

Como se espera que um professor, que ganha 2700 reais, gaste em 3 dias 1450 reais, ou seja, MAIS DA METADE do seu salário, para participar de UM evento acadêmico?

A coisa é ainda mais estranha…não é só falta de condições financeiras…em meu departamento na unversidade, durante muito tempo não havia redução de carga horária para que o professor pudesse realizar atividades de pesquisa. Aliás, nem pesquisa nem qualquer outra atividade, que ainda assim são cobradas como “produção acadêmica”. Ou seja, aquele que quiser ter uma produção, tem que se virar para dar conta de cumprir sua carga horária regular de aulas, e também fazer correr a sua pesquisa ou qualquer atividade que não seja simplesmente dar aulas.

É por essas e outras que o ensino público está falido. Nós, professores, recebemos salários baixos, somos cobrados por uma produção sem necessariamente termos condições de trabalho adequadas. Por isso há tantas greves, por isso há tanto professor trabalhando clandestinamente em empresas privadas, por isso há tanta gente insatisfeita, empurrando o trabalho com a barriga, sem o menor envolvimento com a universidade.

Para quem tenta fazer um trabalho decente, como eu, é revoltante ver esse quadro.

Udapte: esta semana recebi a notícia de que ao menos uma ajuda de custo havia sido liberada pela Universidade. 324 reais. Ao menos dá para pagar uma parte da passagem. Já é um alento.

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