quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Sobre Paulo Freire

Desde que conheci Paulo Freire, fiquei fã de carteirinha. Abriu minha cabeça, me fez entender a “educação” de outra maneira. A leitura de seus textos sempre me causa emoção…textos diretos, simples, mas de uma beleza única, carregados de poesia. Não se trata apenas da forma, mas principalmente do significado ali expresso, profundamente político, tranformador.

Recentemente veio parar em minhas mãos um texto sobre “A importância do ato de ler”, transcrição de uma palestra proferida em Campinas, no Congresso Brasileiro de Leitura de 1981. Posteriormente foi editada em livro (referência abaixo).

Eu adorei esse texto. Seguem alguns trechos, para aqueles que tiverem interesse:

Me parece indispensável, ao procurar falar de tal importância, dizer algo do momento mesmo em que me preparava para aqui estar hoje; dizer algo do processo em que me inseri enquanto ia escrevendo este texto que agora leio, processo que envolvia uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na descodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto.

Nesse texto, ele traz o conceito da “palavramundo”, aquela que estabelece uma relação entre a linguagem e a realidade. E para exemplificar, fala de sua infância, das suas primeiras leituras, das leituras do mundo:

Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe -, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras. Os “textos”, as “palavras”, as ” letras” daquele contexto – em cuja percepção me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber – se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia apreendendo no meu trato com eles, nas minhas relações com meus irmãos mais velhos e com meus pais.

Essas experiências são a gênese do “método Paulo Freire” de alfabetização. Uma alfabetização que vem da leitura do mundo. Aprender a ler através da “palavramundo”. E aprender a ler implica também a aprender a escrever, a re-escrever o mundo. A prática transformadora da educação é um dos pontos principais de Paulo Freire.

Inicialmente me parece interessante reafirmar que sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como um ato criador. Para mim seria impossível engajar-me num trabalho de memorização mecânica dos ba-be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo-lu. Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Ensino em cujo processo o alfabetizador fosse “enchendo” com suas palavras as cabeças supostamente “vazias” dos alfabetizandos. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo da alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem. Na verdade, tanto o alfabetizador quanto o alfabetizando, ao pegarem, por exemplo, um objeto, como faço agora com o que tenho entre os dedos, sentem o objeto, percebem o objeto sentido e percebido. Como eu, o analfabeto é capaz de sentir a caneta, de perceber a caneta e de dizer caneta. Eu, porém, sou capaz de não apenas sentir a caneta, de perceber a caneta, de dizer caneta, mas também de escrever caneta e conseqüentemente, de ler caneta. A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral. Esta montagem não pode ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando. Aí tem ele um momento de sua tarefa criadora.

Creio desnecessário me alongar mais, aqui e agora, sobre o que tenho desenvolvido, em diferentes momentos, a propósito da complexidade deste processo. A um ponto, porém, referido várias vezes neste texto, gostaria de voltar pela significação que tem para a compreensão crítica do ato de ler e, conseqüentemente, para a proposta de alfabetização que me consagrei. Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Na proposta a que me referi acima, este movimento do mundo está sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos. De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.

Os grifos são meus. Quem quiser ler este texto na íntegra, e outros artigos, segue a referência:

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 22 ed. São Paulo: Cortez, 1988. 80 p.

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6 comentários

  1. Palavramundo seria as palavras que aprendemos ler e escrever no mundo onde vivemos?

    Mari
    quarta-feira, 23 de abril de 2008
    10:38
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  2. o que elequis dizer com”como eu um analfabeto,sou capaz de sentir a caneta…”

    antonio marcos
    segunda-feira, 3 de agosto de 2009
    15:42
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  3. Palavramundo seria as palavras que aprendemos ler e escrever no mundo onde vivemos?

    mariana ferreira mendes
    quarta-feira, 31 de março de 2010
    12:38
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  4. Mariana, a idéia de “palavramundo” é na verdade uma referência ao processo de alfabetização. Antes de aprender a ler e escrever palavras, Paulo Freire acreditava que era preciso aprender a ler e escrever o mundo. Isto é, que era preciso perceber as coisas ao nosso redor, saber “ler” e entender o que acontecia. E saber responder aos acontecimentos, saber “escrever”, saber criticar e se posicionar frente ao que acontece no mundo.

    Para Paulo Freire, segundo eu entendo, aprender a ler e escrever deveria ser um processo que aconteceria junto com o aprendizado de “leitura” dos acontecimentos do mundo, das coisas da vida.

    A tal “palavramundo”, no meu entender, é uma referência que ele faz aos fatos e acontecimentos da vida. Foi o jeito dele fazer uma comparação entre “ler um texto” e “ler o mundo”. No texto, o elemento básico é a palavra. No mundo, o elemento básico seria a “palavramundo”.

    Paulo Freire acreditava que a alfabetização era mais do que aprender a ler e escrever palavras. Era um ato de formação da cidadania. De amadurecimento de um espírito crítico em relação à vida. Portanto, era mais do que aprender a ler e escrever palavras. Era aprender a ler e escrever “palavramundo”. :-)

    Mauro Pinheiro
    quarta-feira, 31 de março de 2010
    13:06
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  5. Antônio, na verdade a frase é:
    “Como eu, o analfabeto é capaz de sentir a caneta, de perceber a caneta e de dizer caneta.”

    Paulo Freire simplesmente quis dizer que mesmo aquelas pessoas que não sabem ler e escrever a palavra “caneta”, conseguem entender o que é o objeto “caneta” quando vêem uma caneta, quando seguram uma caneta.

    Ou seja, o fato de não saber ler e escrever não impede que um sujeito analfabeto possa perceber o mundo.

    Mauro Pinheiro
    quarta-feira, 31 de março de 2010
    13:18
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  6. Qual sua compreensão da frase de Paulo Freire e como podemos aplicá-la em nosso cotidiano?

    “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente.”

    Emmanuela Souza da Silva
    segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
    1:12
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